quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

AS CRÔNICAS MACHADIANAS: LENTES POTENTES DE UM ESCRITOR NEGRO


Fiquei mesmo admirado com o que li desse grande escritor brasileiro, fundador da Academia Brasileira de Letras. É um dos maiores escritores negros do Brasil, apesar do muitos o considerarem branco;  se fosse, daria no mesmo, continuaria, para mim, um grande escritor. Mas, às vezes, acho que nem ele mesmo se considerava negro. Muitos dos seus admiradores  ainda pensam assim, pois se começarem a se conscientizar que ele era negro, muitos deles, suponho, deixarão de ler esse grande escritor, por isso se “iludem” dizendo que ele era branco, ou insinuam isso, ou passam a mão por cima. Sei lá.
Meus professores do Ensino Médio jamais disseram que ele era negro, pelo menos boa parte deles. Mas era negro, ao lado de Gonçalves Dias e  o Cisne Negro, o maior poeta de Santa Catarina, Cruz e Souza, discriminado até hoje, e um dos maiores poetas do Brasil.
Mas o que quero falar é que li umas crônicas desse gênio, num livro cujo título é Bons dias!(1990, Unicamp),onde se lê várias crônicas deliciosas, tendo como tema assuntos os mais diversos possíveis, desde assasssinatos até noemeação de ministros, eleição, Guarda Nacional, adultérios, nada escapava à sua pena.
E fui lendo algumas, conhecendo como era o rio de Janeiro da época, como vvia o povo, os costumes, as comidas, a que horas era o almoço, o jantar... Elas servem para quem quiser conhecer a época em que ele vivia escrevendo, pois as crônicas, ali datadas, variam, no tempo, desde 1888 até 1889, quase que diariamente.
A hironia que Machado usa nos romances e contos maravilhosos, como Dom Casmurro e o conto O Alienista, são da mesma forma geniais, toque de mestre. Que negro talentoso, Machado! E ainda dizem, na época de hoje, que somos uma classe inferior. E ele foi autodidata!
E quando, nas crônicas, ele se dirige aos leitores? Admirável escritor. Percebe-se que essa sua verve era algo natural, como quem respira. Discordo de certos professores que dizem que não existe dom, mas a pessoa pode ser treinada a aprender o que quiser fazer, e se tornar um grande músico, escritor, físico, pintor... Conversa!  Machado era um negro de um talento natural, fluiam, seus escritos, como ribeiros límpidos. Essas pessoas que dizem isso, deveriam ser grandes em alguma arte, já que se forem treinados, conseguem. Discordo deles. Machado era um talento nato.
Sua pena era uma câmera potente, que via a sociedade de forma crua, sem disfarce, descrevendo a sociedade de seu tempo, fazendo alusões a fatos hostóricos, a imperadores, como Napoleão, a escritores antigos, como Cícero, à cultura grego-romana; isso tudo nas suas crônicas, algumas delas. Mas segundo Massaud Moisés (1967) a crônica tem em si mesmo o germe da pouca validade no tempo. Se eu pudesse discordar dele (mas não posso, sou um ninguém)diria que as crônicas de Machado têm grande valor para se conhecer, tanto a ele, como sua época, e, por isso, não creio que se perdem com os números dos jornais; aprende-se muito ainda lendo elas. Principalmente quem quer conhecer com mais detalhes a história do Brasil e do Sul. São mesmo enriquecedoras.
Recomendo ler esse livro; desculpem-me se não estiver, esse texto, de acordo com o que acham que deve ser um texto que discorra de um livro, pois gosto de prozear livremente. As amarras deixam-me sem inspiração, se é que tenho. Viva Machado, viva à negritude dos escritores brasileiros!


J.M. Lou