CEM PRECONCEITO ALGUM

by Leo Nardus Mouras



Toda vez ele ia ao CEGOE só para ver ela passar. Era a mais linda das alunas que estudavam à noite. Tinha um quê de superior, algo que a destacava das demais. Não era só a beleza. Era magra, cabelos ondulados, una negra linda. Pele tão macia quanto um sabonete Boticário. Não havia garota como ela na UFRPE.
Trabalhava durante o dia numa escola para crianças, particular, e colocava em prática algumas coisas que aprendera das teorias de Piaget. Claro que nem tudo podia ser aplicado. Havia coisas que Piaget pesquisara que não podia ser posto em prática jamais. Talvez nem no tempo dele serviriam. Ela fazia uma espécie de atualização de suas teorias.
Mirtius, esse era o nome de nosso admirador, adorava quando ela discutia com a professora, doutora em literatura, e via como ela tratava sua única aluna negra na cadeira de Literatura Brasileira. Qualquer comentário, por mais imbecil que fosse dos demais alunos, filhos de gente influente, tirava elogios da professora para eles. A maioria deles era de pele branca, classe média alta, e boa parte deles vinha de carro para a universidade. Quando não, os pais iam buscar, mesmo eles tendo vinte anos ou mais. Eram por demais mimados, e representavam na sala de aula uma espécie de miniatura da sociedade alta, as amizades do colégio interno no qual eram matriculados. Como não estavam acostumados a ver pessoas de outras etnias, como cafusos, negros e índios, se espantavam quando via um por perto. Para todos os efeitos, todo negro, para eles, era ou ladrão ou preste a ser, e institivamente, como que numa coreografia, ao vererm um negro, mesmo se fosse um estudante, com bolsa a tircalo ou nas costas, pegavam nas bolsas ou escondiam os celulares. A pele, para eles, era a definição que valia sempre a pena.
A admiração de Mirtius pela linda aluna de ébano era ridicularizada por suas amigas de classe média. “Como é tu gosta de uma negona dessa, cara?”, perguntavam, e riam dele. “Uma descentendete de escravoS”! As “branconas” orgulhavm-se da pele delas, da ascendência alemã ou portuguesa, dos cabelos e olhos azuis, das viagens a Paris, do curso que fará na Sorbonne, Harvard, entre outras. Entraram num acordo para ridicularizar Martius e a negra. Uma desenhista fazia o desenho dele com uma macaca, levando -a pela mão, e publicavam no Instagram, Face, e outras redes sociais. Variavam bastante nos desenhos. Noutras vezes, colocavam eles com macaos brancos e normais. E elas eram as primeiras a opinar sobre a Literatura Africana, dos autores de Guiné-Bissau, da intelectualidade negra de Moçambique… amavam Mia Couto. Era o primeiro nome do qual lembravam quando falavam em literatura desse continente. Parece que, para eles, só os negros de fora prestavam. Além do mais, “achavam um absurdo”, em pleno século 21, ter esse tipo de coisas, essa discriminação racial. No mundo real eles odiavam ter que dividir a sala com negros e mulatos, pobres, sem educação nem tradição familiar, como os brancos. Meros negros. Mas negavam que sua bisavó era negra, que um avô casou com uma índia, que um tio era negro, essas coisas.
E ele, Mirtius, começou a namorar sua amiga negra, depois de semanas frertando. Começaram a estudar Literatura juntos, toda tarde. Ele precisava de uma ajuda com a nota, e ela não negou. As amigas deixaram de falar com ele. No predio onde moravam, ele era criticado por namorar uma negra. Seu pai cortou a bolsa que dava todo mês, uma bela quantia. Ele preferiu continuar o namoro. Como era formado num curso técnico de rede de computadores, foi trabalhar, e ganhava muito mais que a bolsa do pai. Já estava com vinte anos, e não achava que tinha que ficar debaixo da barra da saia da mãe, nem das calças do pai. Se sentia livre agora, e não um inútil, como antes. Tinha o prazer de fazer algo por si mesmo, traçar seu próprio caminho, sem a coleira dos pais.
Quando eles despontavam, abraçados, nos portões do CEGOE, todos os olhos se viravam na direção deles. O contraste da pele deles era uma antítese viva. Tudo o que importava para ele era a felicidade que sentia em encontrar uma pessoa que o satisfazia totalmente, em tudo, o que sentia era amor, e não tocaria isso por burguesia nenhuma, por status algum, nem por amizade nenhuma.
Suas amigas do prédio continuavam dissimulando sua educação polida, e apenas acenavam para ele,com quem antes participavam de todas as caloradas da universidade, e com quem elas tanto ficavam. Eram bem liberais em tudo. Ele apenas falava com elas o que tinha de falar, durante as aulas, e só. Em breves dias, essas “amigas”, racistas dissimuladas, iam organizar um seminário sobre cultura negra. Afinal, eram iguais como seres humanos.