O CANTOR MUDO

Entrei em um ônibus no Terminal da Macaxeira. Estava cheio, como sempre. Fiquei em pé,perto da porta, pelo fato de ter que descer cerca de menos de um quilômetro depois do terminal onde o peguei. De repente, começo a escutar um som gutural perto de mim. Era um som estranho, embora ritmado. Um mudo tentava cantar uma música conhecida sua. Provavelmente ele estava pensando nas letras. Para ele, era bem legível, penso. E insistia em cantar os mesmos sons.Teve uma que deu para identificar. Zezé de Camargo e Luciano.
Perto de mim, duas moças mangavam dele, achando ridículo aquele som estranho, como de um bêbado. Achei antiético o gesto delas e fiquei sério. Olharam para mim, como que esperando também que eu risse com elas. Claro que não iria rir. Continuei sério.
Ele veio pedir um trocado depois de sua “apresentação”, pois era para ganhar dinheiro que cantava. Uns davam, outros ficaram indiferentes. Tive pena dele. Dei um trocado. Metade de um real. Não agradeceu, pelo fato óbvio. Não falou, nem esboçou nada, nenhum gesto, a não ser com os olhos, que riram ao receber a moeda. Lembrei de um provérbio de Salomão que diz: “O que dá aos pobres empresta a Deus”, e: ‘Aquele que não se compadece do pobre quando pede, o Senhor não o ouvirá”. Grandes verdades! Pode ser que dei por medo de não ser ouvido, ou por pensar em mim mesmo. Talvez tenha sido isso. Seja como for valeu a pena. Desci do ônibus e continuei sério. Elas continuaram,agora, sérias também.