terça-feira, 12 de novembro de 2013

DE MARRÉ DE SI

Estava na aula da professora V., de linguística, e falávamos sobre as brincadeiras que algumas crianças cantavam antigamente, entre muitas.Fazíamos a leitura de um livro sobre a história dos almanaques no Brasil,de Margareth Park, muito interessante.E começamos  a falar sobre essas brincadeiras de infância. Não era como as crianças de hoje, que ficam horas e horas brincando no computador, ipads e similares, nos jogos como GTA, RPG, entre tantos. Uma prisão.
Na rua em que eu morava, as crianças brincavam o tempo todo na rua, raramente ficavam em casa, era uma festa só. Principalmente se estava aquele sol lindo, aquela tarde prazerosa, aquela beleza toda.
Nessa mesma rua havia uma família bem pobre, mais pobre do que alguns de nós, mas era uma família de caráter firme, de muito respeito. Não que pobre seja de mau-caráter, mas é só para enfatizar o jeito deles de ser. Se  me lembro havia três crianças, duas mulheres e um homem, fora o pai, não lembro da mãe.
A mais velha das filhas era bem ativa, muito inteligente. Era a líder nas  brincadeiras com as meninas. Uma brincadeira que ela adorava era uma que sempre ela cantava, que dizia:

Eu sou pobre, pobre, pobre
De marré, marré, marré
Eu sou pobre, pobre, pobre
De marré de si

Eu sou rica(o), rica(o), rica(o)
De marré, marré, marré
Eu sou rica(o), rica(o), rica(o)
De marré de si...

O tal marré, e marré de si, não importa como se escreva, é só uma transliteração onomatopéica sem sentido, já que essa canção é uma adaptação abrasileirada duma canção-de-roda francesa:
"je suis pauvre, pauvre, pauvre, je m'arrête, m'arrête, m'arrête,
je suis riche riche riche, je m'arrête ici."

Ela  saía cantando e dançando com uma graça fenomenal. Era muito talentosa. Ficava fascinado com o talento dela, sua impetuosidade, que me lembra o talento de Fernanda Montenegro, agora. Tamanho era sua capacidade. Era ainda uma criança de poucos mais de 11 anos, mas que capacidade!Mesmo quando ela cresceu mais, continuou brincando, pois as adolescentes agiam mais como crianças que como meninas dessa idade. Era ela que reunia todas para brincar, e a gente, os meninos, ficávamos vendo aquele teatro ao ar livre. Eu não sabia o que era teatro, claro, mas ficava admirando seu trejeito, sua eloquência, tudo. De alguma forma aquilo me encantava, não sei porque. O que era marcante nela, era que ela não só brincava, ela encenava mesmo, encarnava o personagem da brincadeira. Que lindo. Muito pouco se falava em namoro, em engravidar, era outra época mesmo. Não sei por que  razão sempre me lembro dela e suas brincadeiras. Não era só essa brincadeira que elas brincavam, mas todas elas tinha o toque genial dessa garota, ela amava o que fazia, não parecia que estava brincando, parece que estava num palco. Eu me deliciava admirando seu jeito singular de brincar.Talvez gostasse dela. 
Nem sua pobreza impedia de sua alegria irradiar para todos. Ela era como uma luz, que iluminava  todos nós e afastava a tristeza. Até os garotos  as vezes, entravam na brincadeira, embora depois fosse ridicularizado pelos outros. E havia um lá que sempre brincava, e não tinha nenhum trejeito, era muito esperto, isso sim. Ele queria era ficar mo meio das meninas, curtindo tudo. Naquelas tardes ensolaradas, era a hora que ela usava para esquecer as agruras da pobreza, as dificuldades do dia a dia, a falta de dinheiro de seu pai, e se entrega à alegria, ao êxtase, ao glamour. 
Belos tempos, aquele. Não sabia que estava presenciando um teatro de alta qualidade, e ao ar livre, naquelas tardes maravilhosas, quando um talento despontava, e que que, se fosse descoberta, iria ser uma luz ofuscante na constelação da dramaturgia brasileira. Fica, então a outra parte:

Eu sou rica(o), rica(o), rica(o)
De marré, marré, marré
Eu sou rica(o), rica(o), rica(o)
De marré de si...