quinta-feira, 16 de abril de 2015

A FUGA DA PRESIDENTA


Ela já não aguentava mais tanta pressão nas últimas semanas. Os protestos em todo o Brasil a fizera sofrer como nunca. Até em depressão ela parecia entrar. “O que vai ser de mim”, pensou a presidenta, ao ver sua popularidade cada vez mais descer. “Onde errei? Eu tenho seguido até agora as teorias socialistas que tanto li em minha juventude, e até hoje leio. Tenho fomentado as lutas de classes, como planejara Marx. Onde errei?Onde?”
Um pensamento rondava a presidenta nas últimas semanas. Ela já não mandava no Brasil, pois Michel Temer, um bom articulador político, estava fazendo um ótimo trabalho junto à Assembleia Legislativa. O PT agora é só uma sombra do que foi, quando formado. Seu vermelho está tão pálido quanto um couro velho de sapato usado. Já era. A corrupção o tem corruído como um ácido. Dilma se sentia só, mesmo rodeada de ministros, secretários, tanta gente. Seu poder saiu de suas mãos. Lula estava internado numa clínica para alcoólatras. Pensara na proposta do presidente da Bulgária para residir nesse país de origem. Seu pai, Pètar Russev, viera de lá há muitos anos e morou por muito tempo no Brasil. Ela jamais pensara em ir para lá, mas, nos últimos meses, essa ideia tornou-se um bom atrativo para a presidente. “Já é hora mesmo de deixar essa balbúrdia toda”, pensou Dilma. Aceitaria o plano do presidente da Bulgária, afinal de contas, ela também possuía a cidadania búlgara.
O plano já estava certo. Na noite anterior, de madrugada, ela havia falado com o Cônsul da Bulgária, Ruchov Todorov, e acertado tudo. Não confiava mais em ninguém. A ABIN já estava bichada. Temer já havia comprado a confiança de seu diretor, prometendo-lhe reformas importantes e outros privilégios, como mais verbas e mais liberdade, que nem sempre é conseguida dentro da lei. Sentia-se vigiada todo o tempo. Já não era seguro ficar no Brasil devido às convulsões sociais. A guerra era eminente. Tropas fiéis tanto à presidente, quanto a Michel Temer, já haviam travado umas batalhas. Os palácios do governador do Rio de Janeiro e São Paulo foram atacados; já anunciava-se a separação entre o Sul e o Nordeste. Os quarteis estavam sublevados, divididos entre seguir Temer ou dar outro golpe; para isso, era necessário mudar a Constituição. Todos esses pensamentos passaram rápido pela mente da presidenta. Não havia jeito mesmo. Temia pela sua vida, já não governava o Brasil desde que o assumira, pois seu vice minava o governo. É um homem muito temido, tendo apoio de várias transnacionais, que investiram dinheiro, não para o PT, mas, sim, visando o PMDB. Agora entendia tudo. Desde o início que seus aliados tramaram sua queda, mesmo tendo total apoio do povo, dos mais pobres, principalmente do Nordeste. A Direita não queria, mas uma vez, perder o poder; não de novo. Os roubos da Petrobrás foram golpes de mestre. Tanta corrupção descoberta só podia dar nisso, tirar o poder dela, mesmo sendo seus aliados, que comiam das fatias que o seu partido comia; o que era aquilo diante do que Temer e seus aliados iriam ganhar? Incontáveis bilhões de dólares. Temer já arrendara a amazônia a algumas empresas nas áreas de cosméticos e alimentos, fora as que iriam explorar as riquezas minerais.
Dilma não via a hora de sair do Brasil. A Bulgária é sua verdadeira patria. Vivera uma ilusão, fora usada por interesses sórdidos, abrindo o Brasil à ganancia de grupos estrangeiros, por detrás dos panos, e, agora, precisava fugir, afim de salvar sua vida. O povo fora usado, os manifestantes também. E essa TV maldita, que ha tanto tempo traía o Brasil? Não tinha forças para cancelar a concessão dela; havia poderes por detrás disso tudo. Essa TV fazia um belo trabalho idiotizando a população, fazendo-a engolir sua maldita imoralidade, tirando do povo a noção do ridículo, fazendo-os agir como verdadeiros imbecis. Ia fugir do Brasil.
O presidente da Bulgária, Kruschev Dodorov, já havia mandado dois caças para escoltar Dilma até a Europa. Tudo que precisava fazer era dirigir-se até o Uruguai, onde embarcaria no avião particular do presidente europeu. Seria a co-piloto, mas estaria vestida de homem, disfarçada, o que não seria difícil para ela. Seu rosto másculo lhe permitia isso. Seria difícil se livrar dos agentes da ABIN. Temer deu ordens para que, se possível, fizesse um trabalho bem feito, mas que não a deixasse sair do Brasil. Até parecia que ele ouvira a conversa dela na linha privada. O que a ABIN não conseguia fazer? Ela já havia usado as mesmas estratégias contra seu vice, quando mandava no Brasil. Ou será que ela nunca havia mandado no seu país? Sua dúvida era cruel. Estava confusa. Será que foi mesmo eleita pelo povo?
Da Bulgária, Kruschev dava instruções a seus agentes. Não queria que nada ocorresse com sua prima. Que tivesse bastante cuidado, e não deixassem provas da visita deles por lá. O presidente do Uruguai era um forte aliado seu na América Latina, além do mais, era aliado de Dilma; ou melhor, fora, enquanto a mesma se iludira, acreditando que governava o Brasil. Como fora ingênua!
Já embarcara num avião particular de um amigo seu da aeronáutica, um brigadeiro, que a conhecia dos tempos de escola; nunca perdera o contato com ele, mesmo como presidenta do Brasil. Seus guarda-costas conheciam todo o procedimento, e como agiam os agentes da ABIN. Livraram-se deles. Era 1:00 da madrugada quando a presidenta chegou no Uruguay. Fora recebida por uma comitiva seleta: o presidente do Uruguay e alguns ministros mais chegados, cerca de quatro, que não eram dos partidos coligados que o ajudaram a chegar ao poder. Dilma, sem perder tempo, embarcou no avião de seu primo, O presidente da Bulgária. Em sua bagagem estavam documentos e arquivos importantes, que iriam mostrar ao mundo toda as nojeiras cometidas no Brasil. Iria mostrar tudo, desde assassinatos de políticos, empresários, até conspirações internacionais. Esses documentos não tinham preço. Claro que não iria entregá-los assim. Sua moeda de troca. A ONU ficaria feliz em ter eles em suas mãos.
Algumas horas depois, Dilma chega à Bulgária. Seu primo, sorridente, com uma bela comitiva, a esperava num lugar reservado do aeroporto, que estava cercado por agentes do governo e sua polícia federal. Em sua bagagem, a presidenta levava outras coisas: quinhentas músicas da MPB, em seu tablet, camisas da seleção brasileira, todas autografadas pela seleção dos sete, um álbum de receitas da cozinha mineira, e três revistas da Playboy. Seus bens já havia sido vendidos alguns meses antes, e depositados numa conta suíça. Nada no Brasil a prendia mais lá. Era o o melhor a ser feito.
No outro dia, havia uma entrevista coletiva a ser feita; ela iria dizer ao mundo tudo o que ocorrera. Temer temia isso. Mas ele também havia preparado seu dossiê.